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Memória


A realização de um projeto coletivo não é linear, e por isso o resgate de sua memória é tarefa complexa. Esforços empreendidos em determinado momento renderão frutos muito tempo depois - e nem sempre tangíveis e mensuráveis. Os atos e as vontades se somam, sendo a posteriori impossível identificar quem fez o quê e qual a importância singular de cada ato - em dado momento mudanças e conquistas se consolidam, e nem sempre temos a clareza de reconhecer que foram fruto de um longo processo, que envolveu muita gente, que custou muito esforço. Pequenos gestos, contribuições esporádicas, vêm somar-se ao esforço diário de alguns que, por longos períodos, abraçam o projeto como a extensão de suas próprias vidas e dão a ele o melhor de si.
Além de pretender resgatar a memória fatual de alguns acontecimentos que nos foram marcantes, esse espaço se destina a prestar um singelo tributo a essas pessoas cujo empenho, nesses anos, nos abriram o caminho e prepararam o terreno para as conquistas que estamos conseguindo hoje.


Oficinas e Projetos Especiais do ano de 2008


Jornal "Assunto: África"

Jornal Assunto África 2a. edição

Estação Butantã


Oficinas e Projetos Especiais do ano de 2007


Cinema

Instituto Moreira Salles _ Formação de Monitores

Zôo na Escola, Escola no Zôo

Luz Educação _ Oficina de Fotografia

Projeto Berçário de Mudas

Semana das Áfricas

Oficina de Serigrafia

Oficina de Experimentação Audiovisual



Conceição Acioli




Em 20 de maio de 2006 inauguramos a nova sala de artes, à qual demos o nome de "Espaço Conceição Acioli". No ato, Stella Maris Nicolau preparou e leu a seguinte homenagem à Conceição, recém falecida.

"Neste dia especial, quando inauguramos a Sala Conceição Acioli, pensamos que seria importante dizer algumas palavras sobre nossa querida amiga. Certamente aqui entre nós há muitas pessoas que conviveram mais intensamente e por muito mais tempo que eu com Conceição, ou Ceiça, que era como muitos de seus amigos a chamavam. Mas quando discutíamos sobre a organização desta cerimônia de hoje, senti uma necessidade grande de dizer algumas palavras, de falar sobre Conceição. Talvez ainda esteja elaborando essa perda doída. Essa sua partida tão repentina e a constatação de que agora sua presença entre nós se faz de outras maneiras: em nossas lembranças, em nossos sonhos, nas obras que deixou, nos seus ensinamentos sobre a cultura, a arte, o feminino, a política, o Brasil, a educação, as crianças...
Por isso, penso ser tão importante rememorarmos alguns momentos que passamos juntas e das muitas lições que nos deixou nesta escola e nos lugares por onde passou, conquistando a todos e todas com seu carisma, seu rosto expressivo, seu sorriso generoso, seus cabelos vermelhos, sua voz firme, suas convicções políticas, seu empenho na construção de um mundo justo, solidário, humano.
Conceição chegou nesta escola como mãe de aluno e participou ativamente na transformação do Amorim em um lugar de vivência e de produção artística e cultural. E com sua bagagem de atriz, de pesquisadora da cultura popular, de diretora de teatro, educadora, articuladora cultural, essa pernambucana nos agraciou com toda a tradição cultural de sua região desenvolvendo projetos cujo centro era o de valorização da cultura popular brasileira. E assim nasceram as oficinas de capoeira, de circo, de música, de brincadeiras, de danças e a companhia de teatro das mães que introduziu mães de alunos na arte do teatro de bonecos.
Lembro-me de quando algumas mães se reuniam nas tardes de sexta-feira juntamente com Conceição e rumávamos às salas de aula com os bonecos nas mãos para chamarmos as crianças para as brincadeiras e os jogos ao ar livre...
Iniciávamos com a grande roda e cantávamos animadamente "O circo pegou fogo, palhaço deu sinal, acode, acode, acode, a bandeira nacional... Alô Brasil". Lembro-me de Conceição arrumando e improvisando cenários com suas mãos de fada nas festas desta escola: ajeitava um pedaço de tecido branco que com alguns nós se transformavam em orelhinhas e corpinhos de carneirinhos e deixavam lindas as crianças nos nossos autos de natal. Ela sabia como ninguém estender panos de chita coloridos e compor lindos cenários. Fiquei encantada com o bordado que compôs juntamente com algumas mães com motivos de festa junina para ficar no saguão da escola. A beleza de suas criações enchiam nossos olhos. Quem não se lembra da Miota, a boneca gigante que construiu e que vinha brincar com as crianças em algumas tardes?
Os textos de suas peças no teatro de bonecos nos emocionava, fazia-nos rir e chorar ao mesmo tempo. Um texto que ela adaptou para o teatro de bonecos - A águia e a galinha - traduz uma das grandes lições que aprendi com Conceição, uma mulher que sempre colocava em suas produções reflexões sobre o poder, sobre as relações de gênero, as desigualdades e injustiças sociais. A águia e a galinha: a parábola da águia que fôra criada no meio das galinhas e, julgando-se galinha, acreditava que nunca conseguiria voar. Até que se descobre águia e se lança aos céus. Essa linda estória nos toca porque aborda o drama dos que não conseguem romper com situações de conformismo e de opressão, mas quando descobrem sua águia interior podem finalmente libertar-se dessa condição, e lançar seus vôos neste mundo.
Conceição levava uma vida coerente com as idéias que defendia. Era alguém que praticava a solidariedade. Lembro-me com saudades dos cafés da manhã comunitários que organizava na pracinha em frente à sua casa no Morro do Querosene no Dia das Crianças, e da sua participação ativa nas festas do boi. Quando falávamos da dificuldade de sobrevivência dos artistas nesse nosso país, ela muitas vezes brincava dizendo: "eu não tenho trabalhos, eu tenho causas". Talvez a grande lição que levo de Conceição seja a de alguém que sempre buscou viver o seu discurso, de alguém que nunca esteve à venda e que lutava por valores e coisas que realmente valessem a pena em uma existência humana digna, e que esse legado de sua passagem entre nós sempre esteja presente nessa escola, e especialmente nessa sala, tão parecida com ela e que vai abrigar as coisas que ela mais amava: crianças, cultura, arte, educação, alegria, prazer, criação, enfim VIDA!"

Stella Maris Nicolau



Regina Chaves


Em 19 de maio de 2007 a escola foi homenageada com uma Salva de Prata, oferecida pela Câmara Municipal de São Paulo, por iniciativa do Vereador Donato. Em cerimônia na escola, estiveram presentes o atual secretário de Educação do Município, Sr. Alexandre Schneider, a ex-secretária, Sra. Cida Perez, e os vereadores Donato e Soninha, entre outras autoridades e convidados. Na ocasião, devido à sua longa e importantíssima participação na vida da escola, Regina Chaves foi escolhida para representar os pais, e leu a seguinte mensagem, que conta muito da nossa história nos últimos anos:

"Quem me conhece, sabe que para mim é muito difícil estar aqui.
Eu não possuo o dom da oratória. Eu sei olhar e ver, sei ouvir e sentir.
Ontem, falei para o meu filho Pedro: eu vou ter que falar como foi a minha vivência nos oito anos de participação no Amorim Lima e ele, com a linguagem típica dos adolescentes, me disse: ah mamãe, fala que foi legal!
Eu vou tentar dizer por quê foi legal.
Porque aqui eu conheci pessoas brilhantes, guerreiras, dispostas a tornar este espaço um lugar de transformação, de bem viver. Aqui eu aprendi a participar coletivamente. No Conselho da Escola, na APM, e fui tomando gosto em fazer parte, do meu jeito.
Também conheci a intolerância das pessoas. Quando formamos um grupo de Mães monitoras no recreio e nas oficinas de brincadeiras, mães que atuavam mais ativamente dentro da escola, ouvíamos com frequência que nós não tínhamos o quê fazer, que provavelmente as nossas casas seriam uma bagunça e, com certeza, éramos "mal-amadas".
Mas também conheci pessoas que admiravam e apoiavam a nossa disposição. As mães começaram a confiar e até agradeciam, pois aqui dentro da escola, acabávamos sendo mães de todos os alunos, todos eram nossos filhos.
Aqui eu conheci a cultura brasileira na prática. Conheci a capoeira do CEACA, o trabalho sério e respeitado do Mestre Alcides e seus "meninos". Conheci o grupo Cupuaçu, do Tião Carvalho, da Graça Reis, das danças e músicas maranhenses; acompanhei como monitora, os alunos do Amorim dançando côco e cacuriá nas festas do Boi, no Morro do Querosene. Eu vi nascer o Coral Brincante Desembargador Amorim Lima, sob a batuta do Márcio Miele, o Marcinho, ensinando as crianças cantar e tocar um instrumento, a flauta.
Fiz parte da Cia. das Mães, um grupo de teatro de bonecos, criado pela Conceição Acioli, uma pernambucana maravilhosa, mulher sábia e sensível , que nos ensinou a arte de confeccionar e manipular os mamulengos. Nos apresentamos na I Mostra de Teatro de Bonecos de Campinas, em 2002; no SESC Vila Mariana,em 2001, quando a Fundação Abrinq mostrou os projetos que patrocinava pelo Brasil; nas EMEIS Antônio Bento, Emir Macedo e em creches aqui na região. Também nos apresentamos durante muitos anos para o Crer para Ver, projeto da Natura, com a finalidade de motivar e conscientizar as consultoras e funcionários, mostrando a importância e o alcance da responsabilidade social da empresa.
Acompanhei as crianças do Amorim em vários passeios: SESC Itaquera e a euforia com as piscinas; SESC Pompéia e Pinheiros; Zoológico, Projeto Pomar, Instituto Butantan, Espaço Unibanco, Parque das Hortências, Pinacoteca, Playcenter, etc... Eu vi e senti toda a ansiedade , a expectativa, a alegria e encantamento nos olhos delas. Só quem vê sabe o que é isso. Muitas crianças não sabem o que é uma viagem de férias, não têm lazer e por isso, uma tarde no Playcenter, por exemplo, é pura magia, é êxtase total. Voltam cansadas, mas com a alegria do prazer de brincar! Eu também vi crianças chegando aqui em total sofrimento,assustadas, marcadas pelas desgraças da vida. Mas com o passar do tempo, as vi sorrindo, mais confiantes. Participei do Fórum Mundial de Educação, em 2004. Assisti palestras de educadores franceses, da Maria Rita Khel, MIguel Arroyo, Lino de Macedo, César Munhoz. Participei do Butantã Século XXI, no grupo da Educação. Eram pessoas que pensavam e discutiam políticas públicas para a região do Butantâ. A primeira Assembléia foi aqui no Amorim Lima, em 2000.
Ajudei a amassar 10.572 latas de alumínio, doadas à escola pela comunidade e que foram trocadas com a Latasa, por material esportivo. Ajudei a fazer bolos enormes, para comemorarmos todos os aniversariantes do mês, dos alunos do ciclo I, em 1999.
Aprendi com o grupo Vigilantes da Natureza a importância da reciclagem, comecei a separar todo o lixo da minha casa. Colhi rúcula da horta, plantada pela Professora Adelina e alunos e também ajudei a retirar a água da chuva que inundou a escola.
Aonde mais eu viveria tudo isso?
Eu não tenho formação acadêmica, porém acredito muito nessa formação empírica, aprendendo na ação, no fazer diário e constante. Outro dia, eu li numa crônica do Affonso Romano de Sant'Anna, uma frase que diz assim: "amar é ser cúmplice do sonho alheio".
Eu fui cúmplice de um sonho !

Muito obrigada

PS: Os meus filhos João Lucas e Pedro, estudaram no Amorim Lima no período de 1998 à 2006."



Gilberto Frachetta


Apesar de sua filha não ser mais aluna da escola já há alguns anos (mora na Alemanha), Gilberto continua sendo ativo e importante colaborador da EMEF – é hoje presidente da ONG Educação Cidadã, e representante da comunidade no Conselho Pedagógico. Há muitos anos concilia sua militância pelos direitos das pessoas com deficiência – foi presidente do Conselho Municipal da Pessoa Deficiente – com seu ativismo a favor da escola pública de qualidade.
No Amorim foi presidente do Conselho de Escola por duas gestões – inclusive à época de implementação do Projeto Amorim Lima, que nos transformou tão profundamente. Minucioso, defensor intransigente dos princípios norteadores do nosso projeto e conhecedor dos trâmites legais e burocráticos que envolvem a educação, é o nosso consultor informal para as questões regimentais, e um dos responsáveis pela articulação do diálogo que procuramos sempre mais manter com as instâncias e os órgãos da administração pública.